A essas pessoas digo que perderam a
vida, as suas ambições e os seus sonhos, que não quero ser como elas, enfadadas
da vida. “Quero viver!”, basta eu dizer. Tenho catorze anos e ainda sou criança
e gosto de o ser, para não ligar às tolices que os adultos digam de como devo
viver a minha vida, sou eu que a decido. Não me importarei de viver com o
ordenado mínimo nacional, desde que seja fiel a mim própria e ao meu coração.
Sim, pode soar a parvoíce, mas falo pela voz de milhares de estudantes que como
eu, querem seguir o que realmente gostam de fazer. Professor de surf, chef de
cozinha, psicóloga ou antropóloga; a vocês, os adultos do futuro, digo que já
chega de ouvirmos os “sem esperança” dizendo que não há futuro nas coisas que
realmente queremos fazer.
Porque quando há paixão e empenho,
conseguimos chegar longe; sempre desejei que no futuro vivesse feliz com o meu
marido mais os meus três filhos (um rapaz, uma rapariga e um “acidente”) numa
grande vivenda com uma floresta ao lado, onde poderia lá ir como um escape,
porque sinto-me feliz quando estou em sintonia com a Natureza. Poderei não ter
uma grande vivenda, mas só quero ser feliz… Serei feliz à mesma num pequeno
apartamento, fazendo o que quero e o que gosto.
Nos tempos medievais, as pessoas
eram obrigadas a casarem com quem os pais quisessem. Isso mudou, e mudará
também o preconceito de que os “sem esperança” têm por nós, de que não
conseguimos pensar por nós próprios, que apenas eles sabem o que é o melhor.
Pois eles estão enganados, por mais crianças e imaturos que sejamos, temos
sonhos. Sonhos que começaram com um simples pensamento, um rápido devaneio na nossa
mente, até que damos por nós obcecados com essa pequena ideia, e pensamos:
“Porque não me apercebi disto antes?”. Falamos com os nossos colegas e
professores, que nos aconselham e nos aplaudem por causa de uma ideia tão
inovadora, e dizem-nos para continuarmos com esse sonho.
Estudei muito sobre esse assunto e
apliquei-me nas aulas, porque a minha paixão é tão grande, que acredito que com
esforço, poderei ser ótima, senão mesmo a melhor, no que quero fazer. E
finalmente ganho coragem para contar aos meus pais o meu sonho. A minha mãe
compreendeu-me e apoiou-me, mesmo apesar de ser um sonho caro. O meu pai é uma
mente conservadora (de ciências!), que recusou o que eu queria, o que não faz
lá muito sentido, porque tudo o que aprendi, aprendi com ele. Percebo que possa
ser um futuro sem riquezas nem luxos, mas o que não me falta é motivação.
Tenho uma prima chamada Susana, de
vinte e tal anos, que está no curso de medicina, e eu uma vez perguntei-lhe
qual tinha sido o momento da sua vida em que se apercebeu de que o que
realmente queria seguir era medicina, que esta era a sua verdadeira vocação.
Ela riu-se e disse: “Olha, nem agora estou segura de que o é, nunca estive, mas
invejo a paixão com que falas das certezas do teu futuro”. Se tenho uma paixão,
tenho que a seguir! Se sinto que tenho uma vocação, não perco nada! E não é
vergonha nenhuma dizer que não vou para política, advocacia ou ciência, porque
se amo o que faço, quero mostrá-lo a todo o mundo, e quero que me reconheçam
pelo que faço. Quero servir de modelo a outros miúdos que no futuro sintam a
mesma paixão por assuntos inusitados, e ajudá-los a perceber que não estão
sozinhos no mundo, que têm que seguir as suas paixões, e dizê-lo e
incentivá-los da mesma maneira como os meus professores o fizeram!
Quando tinha
cinco anos, queria ser pintora. Com sete queria ser bombeira. Com nove queria
ser “famosa como a Lili Caneças”. Com dez queria ser antropóloga e até aos doze
estive indecisa entre isso ou escritora. Tenho catorze anos, estou no nono ano,
e estou decidida a ir para Letras, porque o que eu mais quero ser no mundo é
jornalista de música.
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